Tão torta, até o fim dos tempos

Já era noite, muito tarde para os humanos, mas não para os heróis, não para os que voam e enfrentam as maldades da noite. Já não havia luz e a busca incessante pela lua persistia ao longo desta noite tensa e sem sentido. Asas feridas, rosto perdido, a solidão um peso quase intolerável nas costas e um pedido “não aguento mais, acabe logo com isso”, sem chances, sem luz e uma fuga. O desvio é um furacão.

Atravessando os limites da cidade, um campo lindo, verde. Lembra-se de Tóquio, aquele jardim com as cerejeiras, as palavras e as promessas. A salvação. Uma única casa isolada é pequena, uma luz acessa. É agora, sem chances para dúvidas, única cura, único veneno, é simplesmente, a única parceria, real, eterna e pura.

Um toque na janela rompem os toques daquela máquina velha.

Um sussurro.

– …robin – ele engasga – Me ajude, salve-me.

É estranho, é simplesmente incrível, como ela não reage, até a última sílaba, até o último som. Calmamente, friamente. Assim ela foi treinada, sem pressa. Até a janela, passo ante passo.

– Qual a missão, senhor?

Ainda em agonia.

– sem missões, um pedido. Robin, é pra sempre, é eterno – tudo embarga, a dor transpassa as rugas dos anos, os traços de cada batalha, cada marca é uma vitória, uma derrota. Cada uma delas ela bebeu, bebeu das histórias, cada palavra ela ingeriu, guardou e aquilo inflamava em cada luta – dói tanto. Voe comigo?

Há tempos, que as esperanças de uma parceria de auto nível ao lado do mestre já haviam se esvaído, logo depois de alguns voos pela cidade cinza.                 Resolveu fugir para o campo, a capa empoeirada perto da porta, faltava a coragem de voar novamente. O medo era a máscara  da pequena parceira.

– Combater de novo? Seria ótimo! Pra que os sussurros, eu quem desisti. Volto com o maior prazer. Eu…

Não!!! NÃO! Não Robin, pra sempre. Do meu lado aceita?

O silêncio se abateu.

– Senhor, eu… não sei o que dizer – os olhos eram um misto de tantas coisas, talvez, um dicionário inteiro. Poderia despejar por horas e ainda sim não chegaria perto de traduzir  aquelas luzes em espirais .

– Aceita? – a voz ganhava força, respeito. Ele voltava aquela imagem heroica e admirável – diga logo.

Ainda espantada, tanto tormento, nem ao menos percebera que sentou no batente da janela. Sem chances para dúvidas.

– Vou pegar a minha capa, senhor.

Sem Lua, sem testemunhas. O vento sopra e lava ao longe cada letrinha torta que começa a ser rabiscada nas correntes formadas pelos voos. Cada uma bem tortinha e estranha o suficiente para, quem sabe, solidificar-se por entre as eras, por entre as gerações. Até quem sabe o fim das estações.

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